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Vol.1 (1) 2020

Ermelinda Liberato22

                    

           MARIA, Adolfo. Naquele Dia Naquele Cazenga. Lisboa: Edições Colibri, 2019

         

          p. 122-125

Texto integral

 

http://www.piagetbenguela.org/index.php/i-19/r-102/2-cp-42/133-el-12

Recebido aos: 06/11/2019 | Publicado aos: 26/02/2020

MARIA, Adolfo. Naquele Dia Naquele Cazenga.

Lisboa: Edições Colibri, 2019.

Simplesmente genial!

Longe dos holofotes do crescimento económico, o autor convida o leitor a empreender uma viagem pela Luanda real, cidade que tem a capacidade de nos inebriar com o seu encanto e, ao mesmo tempo, surpreender, dados os inúmeros acontecimentos inusitados que ali acontecem quotidianamente. De uma forma subtil e inteligentíssima, Adolfo Maria, figura incontornável do nacionalismo angolano, conhecedor da História e da realidade do país, desvela um cenário que se desdobra pelo campo da interdisciplinaridade, retratando uma dinâmica social que se renova a uma velocidade estonteante. Numa linguagem simples, acessível, porém cuidada, enriquecida com expressões típicas do “português de Luanda”, numa mescla de vocabulário proveniente das diferentes línguas nacionais que constituem o mosaico etnolinguístico do país (canvanza, mujimbos, maka, muxoxo…), assim como do calão típico “daquelas gentes”, e onde não faltam os recursos estilísticos, a obra procura captar a atenção de um público mais vasto, que se estende além da Academia, da Ciência e das Artes.

No princípio era a frase (capítulo I) constitui o ponto de partida para o desenrolar da acção. Um simples desabafo de um cidadão anónimo, inconformado com a sua condição de vida, irá despoletar uma sequência concatenada de acontecimentos que irão trazer à tona outras preocupações – sociais, políticas e económicas – assim como despertar uma série de sentimentos camuflados que se estendem para lá do bairro e do município, para outros pontos da cidade capital. Simão Pedro Pedro, um dos moradores do bairro, ao exteriorizar em voz alta “quando vivemos no meio da merda só cheiramos a merda”, irá despertar a consciência de cidadania, há muito adormecida, dos seus vizinhos. Um transeunte que circulava pelas imediações escuta o referido lamento e alerta as autoridades para o problema de um grupo de cidadãos estarem a organizar uma tentativa de subversão contra o regime político instaurado, o que as levam a reagir de imediato, enviando a polícia para cercar e vigiar o bairro, numa tentativa de controlarem o alastramento para os bairros vizinhos.

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22 Doutora em Estudos Africanos pelo Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL). Professora Auxiliar do Instituto Superior de Ciências da Comunicação (ISUCIC) Luanda. Investigadora/pesquisadora do Centro de Estudos Internacionais (CEI-IUL) Lisboa. Email: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

A diversidade do Cazenga traz, igualmente, à tona outros acontecimentos, de diferentes intensidades. É neste espaço, onde abunda o lixo acumulado, as moscas e os mosquitos, as doenças, e onde as consequências das chuvas se fazem sentir (águas paradas, ausência de saneamento), que assistimos à construção de pequenos mundos daquele mundo (capítulo II), ou seja, vamos conhecendo, ao detalhe, as preocupações dos habitantes daquele bairro. Entre intrigas, fofocas, “mambos”, amores e sonhos vemos descortinar uma realidade que não é assim tao nova, mas que teima em não ser alterada para melhor. E à medida que a ação se desenrola, outras gentes (capítulo III) vão sendo apresentadas, com destaque para Zacarias (o mulherengo, mais tarde activista), Luzia Vieira Torres (filha de Albino e Da. Rosa), Albino Vieira Torres (representação da elite), António Kiluange (militar, dirigente partidário e empresário). De igual modo, outros universos vão sendo caracterizados, como por exemplo, os convívios que se realizam na residência dos Vieira Torres, situada no bairro do Alvalade, uma das zonas mais elitistas do centro da cidade de Luanda, onde, em contraste com o Cazenga, abundam o luxo, os bens materiais e de consumo, o desperdício de géneros alimentares, para além de constantemente vigiado, seja pela Polícia Nacional, seja por empresas de segurança privada.

Porém, foi ali, naquele Cazenga, onde tudo começou (capítulo IV), num bairro pobre, habitado maioritariamente por zungueiras (representadas pela D. Joana Domingues), meninos de rua (Sobio e o seu grupo de amigos com quem jogava a bola), deficientes físicos (Joaquim Silveira ou “Pernudo” que “não tinha pernas, depois de ter caído numa mina, nos tempos da guerra civil”, (p. 25), business (Virgílio Simões, mais conhecido por Pedrinhas ou Ojeka Yetu), empregados precários (do qual a Balbina é o principal exemplo), o bajú (figura incontornável da sociedade angolana actual), assim como delinquentes (José Caetano, mais conhecido no bairro por Tala), e onde não faltam as instituições religiosas e de solidariedade, como o “Lar-Abrigo Mãos do Senhor”, gerido pela irmã Domingas, igualmente “nascida e criada nos musseques de Luanda (p. 27).

Apesar dos sobressaltos da cidade (capítulo V), o autor continua a narração e outras personagens – Zacarias (com um papel social mais interventivo) e Sobio (menino de rua a quem a guerra destruiu a infância e os sonhos) – começam a ganhar realce na história pelas suas acções em defesa do bairro e dos seus residentes, mostrando, por um lado, uma tomada de consciência (Zacarias) e a solidariedade (Sobio), incentivando o resto dos moradores a lutarem pelos seus direitos de cidadania. No meio dos sobressaltos, assistimos ainda a uma tomada de consciência da elite, personificada por Aniceto Vieira Lopes, das condições de vida da maioria da população. E, na hora da verdade (capítulo VI), tudo se esclarece e a acção dá lugar a outros acontecimentos. A descrição da violência do modo de acção de alguns efectivos da Polícia Nacional, o secretismo no modo de actuação, a prisão sem culpa formal, o isolamento e o distanciamento em relação ao resto da população, a corrupção que grassa em todas as esferas da sociedade angolana, com destaque para os agentes policiais, vulgarmente denominados “cobradores de impostos” (p. 129), constituem apenas alguns exemplos do quotidiano luandense.

E os desenlaces (capítulo VII) começam a ser descortinados. D. Rosa Vieira Torres, representante do conservadorismo da classe média-alta angolana, que se envolve amorosamente com o amigo do seu filho – Zacarias – é assaltada e assassinada por assaltantes, quando saía de um dos luxuosos hotéis localizados no centro da cidade onde se encontrava com o jovem, mostrando deste modo, que a violência assustadora grassa nas ruas de Luanda, no centro ou na periferia, afectando todos que aí residem e circulam, independentemente da sua condição social. O narrador mostra-nos, igualmente que “naquele bairro, com más condições de vida para os seus habitantes, também havia diferenças sociais…” (p. 169), revelando a difícil luta dos angolanos contra a desigualdade – social, racial, cultural, entre outras –, constituindo um entrave à união dos moradores do bairro e dos angolanos em geral.

A célebre frase alterou, também, a vida da família Vieira Torres. Abílio Vieira Torres, o patriarca da família, antigo responsável político, ex-deputado e actual homem de negócios, decide envolver-se na causa dos moradores do seu bairro, criando uma comissão e um grupo de diálogo entre os órgãos do poder e de soberania e os moradores do bairro, impedindo, assim, uma intervenção violenta por parte das autoridades, demonstrando que essa via deve prevalecer na resolução de conflitos, em detrimento da violência. E foi deste modo que o Cazenga virou estrela (capítulo VIII), apesar do cepticismo do Kota Medito, cuja experiência de vida o faz conter o optimismo – “medito que isto é bonito demais para nós acreditarmos que tudo vai já mudar. Medito que as pessoas ainda acreditam muito e pensam pouco. Mas vamos esperar…” (p. 210).

E é assim que as diversas buscas de futuro (capítulo IX) são apresentadas: é realizada uma gigantesca operação de recolha de lixo; a água começa a jorrar nas torneiras; o menino Sobio opta pela (re) entrada no lar da irmã Domingas para ter um tecto e frequentar a escola, deixando a rua e os seus caixotes; é criada uma associação cultural (à imagem e semelhança de um jango), onde os moradores se podiam reunir e debater as questões relacionadas com o bairro, tendo em vista a melhoria das suas condições de vida. No entanto, os mistérios do imprevisível (capítulo X) levam a um desfecho inesperado: Jofre Vieira Torres, filho de Albino e D. Rosa Vieira Torres, não aguenta a pressão psicológica que o conduziu a uma depressão, assassina Balbina e suicida-se em seguida. A personagem de Jofre Vieira Torres funciona como um alerta para a necessidade de criação de políticas públicas viradas para a juventude, grupo que constitui a maioria da população, mais exposta e afectada pelas difíceis condições de vida. O Kota Midito morre de doença e velhice e deixa a sua casa no bairro para Zacarias, que para aí se muda, de modo a estar mais perto da causa; o Sr. Aniceto Vieira Torres “começou a ver que Angola não é o seu quintal” (p. 241) e decide ser socialmente mais interventivo, juntando-se aos habitantes do bairro para ajudar a melhorar o seu quotidiano.

Com o desaparecimento dos principais intervenientes e à medida que a vida ia retomando o seu curso normal, naquele bairro do Cazenga, o “lixo voltara a se amontoar, a água a escassear, a energia elétrica a falhar” (p. 251). O desfecho da obra dá-se nas mesmas circunstâncias que marcam o seu início, num qualquer dia, naquele bairro, naquele Cazenga, dando a ideia de que tudo continua igual, sem alterações de vulto. O lixo, ponto de discórdia e de união, acaba por absorver o próprio ser humano, que é deglutido pelos seus próprios dejectos, tornando-se um modo de viver “tens razão, Simão Pedro, e digo-te que cheiramos a merda e já nem sabemos, ficámos habituados a viver na merda e a gente julga que não há outro modo de viver” (p. 75).

O romance, assente na crítica social e inseparável da realidade, constitui uma metáfora da resistência dos luandenses perante a dura realidade que é o seu quotidiano e a invisibilidade da sua condição perante as elites, mais focada na satisfação das suas necessidades pessoais, em detrimento dos interesses colectivos, ou seja, da Nação e do seu povo. O narrador visa, sobretudo, enaltecer o povo angolano, em particular os residentes na cidade de Luanda que, face às dificuldades e constrangimentos a que estão expostos, conseguem criar estratégias que lhes permitam a sobrevivência, em muitos casos, no limitar da própria condição humana. De igual modo, pretende chamar a atenção para a necessidade do exercício de cidadania, como elemento essencial para resolução dos principais problemas que afectam os cidadãos daquele país.A presente obra representa mais um exemplo pragmático de como a Arte (no caso, a Literatura) pode ser utilizada como fonte de informação para as Ciências Sociais. Apesar do seu carácter ficcional constituir um constrangimento, na medida em que pode despertar emoções, a caracterização social que sobressai é deveras realista e pode mostrar-nos caminhos que, racionalmente, não conseguimos visualizar. No caso, o autor reflecte sobre dos principais binómios das Ciências Sociais, nomeadamente tradição/modernidade, formal/informal, urbano/ rural, desenvolvimento/subdesenvolvimento, colonialismo/pós-colonialismo. Assim como foca outras realidades, transparecendo a complexidade do universo luandense – pobreza e estratégias de sobrevivência, crianças de rua e crianças na rua, alcoolismo, questões étnicas e raciais, déficit cultural, educativo e de cidadania, democracia, direitos cívicos, sociedade civil, criminalidade, corrupção, entre muitas outras.

Universo de palavras, Naquele dia Naquela Cazena constrói o universo luandense de uma sociedade que se transforma e reconfigura diariamente, a um ritmo alucinante. É caso para dizer que qualquer semelhança com a realidade (não) é pura coincidência.

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 ISSN 2184-7347

Centro de Estudos e Pesquisa do Instituto Superior Politécnico Jean Piaget de Benguela/ CesP JPB
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